3 de abril de 2011

Sucedido da Vez que Quiqui Barbeiro-de-Verruga Fez a Temida Mágica da Desaparição

E nesses termos Quiboronha Azevedo anunciou que faria seu número de mágica mais incrível de todo o sertão do Brasil. A desaparição de meia-dúzia de moedas. Quiboronha que de certidão de nascimento tinha por sobrenome Azevedo dos Réus, e desse nome e sobrenomes tinha vergonha, que na verdade não se comparava a vergonha de seu nefasto apelido, que na hora da apresentação do magicismo, um magrela deu de fazer relembramento do detestado apelido de Quiboronha: Quiqui Barbeiro-de-Verruga, apelido adquirido quando Quiqui foi espiado nos íntimos do quarto com uma senhora do tipo Matusalém, fazendo a poder de gileti a verruga, o buço e demais cabeludismos da velha bruxa com cara de maracujá de gaveta. Foi Quiboronha ouvir aquela alcunha pra pegar cor de tomate e ódio, e descalibrar a mágica e começar a dar sumiço nos apetrechos de magia e outros objetos do palco. E o magrela gritando sem cansar o apelidão do Quiboronha. Quando deu por finalizada a mágica, o povo da vila deu levantamento na desaparição das coisas: sumiu além de treze reais em moedas, mais outro tanto em papel, uma cartola e seu competente coelho, duas assistentes de palco e as roupas de cima de uma outra, sumiu ainda três carteiras, oito pares de brinco, a calcinha de pelo menos três mocinhas que assistiam a mágica, quinze reais sumiu da caixinha de oferta da Assembléia de Deus, dois quilos de ofícios do Penteado Futebol Clube, dois dentes de alho da mercearia do Quincas, sumiu o jumento de um moleque, e ainda desapareceu meia dúzia de bigodes. E Quiqui Barbeiro -de-Verruga até de sua pessoa deu desaparição.

1 de abril de 2011

Quando Tutu Salvador Assistiu Rocky III e Saiu Enchendo de Porrada até a Própria Sombra

Sucedeu que tinha acabado de sair da sessão de estréia do Rocky III no sertão de Veredas do Sul, a bem dizer uma cidade com 1002 cidadãos dignos e que não levam desaforo pra casa. Pois foi o jardineiro Tutu adquirir complexo de Rocky Balboa pra despachar na porrada canhota desde o mais corriqueiro ranhento ao mais importante funcionário da prefeitura. Tava impossível Tutu Salvador em feitio de Rocky Balboa. Até o cavalo do contador Aristóbulo Reis caiu no punho de Tutu Porradeiro, apelido que o povinho pregou na telha do jardineiro. Tutu não ficou só com a fama de maldade. Muito ao contrário. Ficou com fama de salvador também. Quebrou no cacete um tal de Joãozinho Mota, ladrão de galinha, pé-rapado, que na justa hora em que ganhava um parzão de galos, deu de cara no punho de ferro de Tutu Porradeiro. Até o pastor Malaquias da Assembléia de Deus levou um solopapo no pé do ouvido, de não saber em que ano estava. Nem a costureira Joanete Bricó escapou. Levou uma tão bem dada na tábua do queixo, que de imediato teve que encomendar nova dentadura. Pois o complexo de Tutu Porradeiro perdeu a força quando encontrou o vinganceiro Alpercarto Lorosa, que tinha complexo de Apollo Creed. Juro, nem em derredor de vinte anos o povo soube de surra tão mal-encarada. Por essas e por outras que Tutu Salvador, desde 1983, não encharcava mais a goela de pinga e passou assistir apenas comédias românticas e aventuras do calibre do De Volta para o Futuro. Faroeste e Ação, nem pensar.

3 de março de 2011

Bonifácio Carrara, el argentino de meia-tigela! Viva Anacleto Serapião

E Bonifácio era bobo das idéias por um tango argentino. De Carlos Gardel só tinha Jesus Cristo por cima dele. Não tinha nenhum forró pé-de-serra que desvirtuasse a perna de Bonifácio do tango. Pois na festa de São João, era brasileirismo pra cá e tango argentino querendo chutar vitrola pra lá. A bem dizer, não cabia mais nem uma azeitona no salãozinho de festas da paróquia do sertão de Santo Amaro das Boas Mortes. Tinha até moleque já expelido pelo ladrão. Era Bonifácio engrandecer Agustín Magaldi e outra tangueiros, pro meganha Anacleto Serapião desmerecer a outra metade, pois era sabido de todos que se tinha alguém que Anacleto não gostava nesse mundo de Nosso Senhor, era qualquer falante de espanhol, seja vivo ou morto, seja padre ou criança, até meretriz. Era alguém dizer "que pasa?", pra Anacleto tomar feitio de monstro vinganceiro e denegrir a mãe até de quem tava quieto. E Bonifácio duro de envergar, deu de arrotar exaltações e pragmáticas em espanhol, e a briguinha que até então era uma simples discussão tomou ar de holocausto. Anacleto tomava cor de pimentão, e Bonifácio cuspia meia-dúzia de "hola, que tal?" na face do vingancista emergente. E na mão de Anacleto, saído de lugar mágico, tomou ares um facão de metro e meio diante dos olhos de Bonifácio, que de imediato deu de traduzir os espanhóis arrotados nos seguintes dizeres: eu disse coisa de somenos, seu Anacleto, tava mesmo é desmerecendo a meretriz da mãe de Carlos Gardel, que aquela dança é invenção é de brasileiro, que espanhol mesmo é língua de viado, e que Deus-o-livre qualquer latino de cruzar com seu Anacleto, que é o sujeito mais competente de todo o Pernambuco, em assuntos de música ou prisão!. E por fim, arrotou aquele que é o título desse sucedido.

17 de fevereiro de 2011

De Quando Paranhus Carfanaum em Homem se Tornou

De pinga em pinga, cana em cana e depois de uma dose diabólica do alambique "Em Pé Impossível", Paranhus Carfanaum tomou desconsciência da realidade e em feitio de possesso afastou do seu ao derredor todo mundo que não conhecia e que conhecia, entre gente e criaturas das mais variadas, insuportável emboramente simpático Carfanaum deu de encarnar touro possesso e outras inventorias de bichos como vaca louca, tigre-dentes-de-sabre com febre, galo sem cabeça e mulher que pegou marido em delito de vizinha. Pois justo num dobrar de esquina, um caminhãozão do sertão pega Paranhus em modo mortal, que em parecência da pancada, vazou o futrico que uma bomba atômica do tipo daquela japonesa estourou em cima do tal de Carfanaum. Pois no hospital quedou por semanas adentro e mais de um agente funerário veio tirar as medidas de Paranhus Carfanaum na surdina da noite. Estava irreconhecível o homem, mais quebrado que Judas em Semana Santa e mais em decadência queRocky Balboa no dobrar do quinto filme. Pois no segundo mês entrante uns missionários de sei-lá-de-onde deram entrada no hospital em modo de Jesus e seus Díscipulos... foram salvar umas almas aqui, um milagre por acolá, quando deram de cara com Paranhus Carfanaum... mais de uma moça da cidade picou mula do quarto em feitio de trem-bala e mais de um gringo pôs a fé em jogo diante de tamanha miséria. Reza ali, reza alá, reza aqui, no dia seguinte Paranhus mantendo a aparência de quem foi a guerra e não me chamou, tomou saúde de menino novo e disse de Paranhus pra Carfanaum. De hoje em diante, no mais forçar, tomo só água e nada mais. Pois foi decisão Paranhus tomar para ao em casa chegar de sua esposa apanhar. Vina Carfanaum em diante de tamanho pouco caso, sem notícia do marido em mês ou mais botou a acreditar que Paranhus estabeleceu sua segunda família em Sertão do Monte-trigo, local para onde Paranhus Carfanaum tinha se encaminhado no dia do sucedido porre e porrada. Vina Carfanaum e os quatro infantes descismaram e acolheram Paranhus Carfanaum, que segundo o tal gringo "uati uati não sei de que", nova critura se tornou.

13 de fevereiro de 2011

De Como Afonsete Santana e Castro Engordou Quilo-e-meio e Desandou pelas Tripas Vinte e três reais em Dinheiro e outro tanto em Papéis do Governo

Nada demais, até a hora em que a dona Cráudia Reis tocou o sininho chamando os convidados para o almoço de comemorativo do natalício de Adulão Reis. E lá, linda e formosa, estava a feijoada de mileum ingredientes, famosa sertão adentro e em ascensão capitais afora. Pois no dobrar da segunda hora em cima do prato, Afonsete Santana sentiu aquele frio na espinha, provindo das profundas partes. E friozinho nefasto subindo e descendo pelas tripas, Dona Afonsete em feitio de relâmpago, vai em direcionamento ao sanitário e lá no íntimo começou a descomer coisas inefáveis lá por aquele lugar onde o sol não bate. Entre feijões e objetos não-identificados, lá estava algumas coisas que não se tinham notícias desde tempos recuados, como um dedal em forma de estátua da liberdade, um anel de compromisso de um tal de Tião Grandão, da era em que Afonsete tinha as pelancas e montepios no devido lugar e altura, um grampo de varal, três reais em moedas e duas cédulas de dez reais, que não se recordava em ouvir falar em prejuízo ou queixa de desaparecimento, e lá estava mais alguns lucros e dividendos em papel de governo brincadeiroso da filharada, que na época do sumiço foram reclamados pelos molecotes, hoje com canudos, becas de doutor e escritórios montados nas capitais. Motivo do desarranjo: Dona Cráudia Reis em bafo de simpatia picou um cheque sustados do Banco do Brasil, moeu no liquidificador um dispositivo de caixa eletrônico e pingou dose-e-meia de laxante "Corre!". Afonsete teve conhecimento disso ao confessar o nefasto sucedido, todavia, com reservas de alguns detalhes, inclusive o detalhe de que a única coisa resgatada da bóstaiada foi a pecúnia de vinte e três reais. Mãos, moedas e cédulas e intestino devidamente lavados a poder de QBoa: segundo rounde da feijoada. Com bolsos cheios. Felizarda!

De Como Vaguiner Peroba Descobriu Que é por Dois mais Dois que se Chega a Quatro

Foi quando a mão aberta e mais um tapa de Uóshintom Uéslei tornou o corpo de Vaguiner Peroba em feitio de peão de corda. Foi dar tantas e outras piruetas e quedar em cor de vela com a língua de fora, ânsia de vômito, cara de ênjoo de quem comeu lesma a milanesa e não gostou. Pois na justa hora em que botava as tripas boca-à-fora, o rabo-de-saia de seu bem querer Clara Joaquina dos Azeredos chegava de mala-e-cuia, maior cara lavada. Cara lavada até deitar as bagas dos olhos verdes naquele regurgito de variadas cores e conteúdos, entre algumas moedas de cruzados e um brinco que a mãe de Vaguiner Peroba tinha perdido em recuados verões (ei-lo aqui, diria seu falecido tio João Batista dos Santos, pastor assembleiano, desfrutando de verdes pastos no paraíso). É Clara deitar vista naquela nojeira, olhar ao redor, pra em modo disfarçoso e em cor de vermelho pimenta na lata da cara, gaguejar duzentos e poucos não sei o que e tomar retorno da rua, e mãozona de Uóshintom Uéslei quebrar dois dentes de Clara Joaquina e tornar sumido um tanto outro. É que Uóshintom Uéslei era o patrono do sobrenome dos Azeredos, beneficiando em compromisso de papel e padre, o sobrenome à Clara Joaquina. Entre alguns entretantos e todavias, Uóshintom Uéslei foi tirar cisma de infidelidade por parte de Clara, e chegou jogando verde pra colher maduro pra Vaguiner e Peroba entrar de desmerecimento em desfavor a Clara Joaquina. Uóshintom Uéslei de bom coração perdoou o sem-vergonhismo de Clara Joaquina, pagou implante dentário e a poder de serra-circular arrancou o quarto par de chifre em dois meses de matrimônio passado no papel e padre.

12 de fevereiro de 2011

Quando Rosalina Borges Despachou Tonhão Borges às Profundas do Inferno

Foi depois de, em delito sem-vergonhista, Tonhão Borges encher de porrada a cara murcha e papada de Rosalina Borges, que estava de caso tomado com um tal de Adolfo Antero, de repartições subalternistas do governo, com implante de pentelho na pinha do queixo. Pois foi Rosalina Borges apanhar pra começar a maquinar seu vingancismo contra Tonhão Borges, que as essas horas já estava de cara afundada no copo da cachaça e cotovelos inchados. Pois lá pelas tantas da madrugada, Tonhão de Cara-vermelha atravessa as portas do lar, vai em direção ao leito conjugal. Quando entra no quarto de anos de tédio, Tonhão Borges da de cara com algo nunca visto em nação humana ou de fantasma. Dona Rosalina Borges, pendurada na parede, de cabeça pra baixo, em feitio de possuída pelo capeta (sem roupa e demais proteções visuais... A VISÂO DO INFERNO), e Adolfo Antero figurando exorcista, de batina e tudo, dando cajadas nefastas na cara da baleia Rosalina. Foi só o tempo de Tonhão Borges entrar em descompasso e começar a sentir-se em peso de chumbo, atrevessando piso, chão, barro e caindo em colo de Satanáis... pois diante de vista tão maldosa, jamais poderia viver no paraíso. Jamais.

11 de janeiro de 2011

Grito de Coisa Ruim Não é Pra Qualquer Um

E Rebordão Pereira, da engavetada comarca de Santo Pirajibe do Norte, de grito engasgado na cova da goela de modo que não saia som, encenava que nem filme mudo desespero e as varetas dos braços em modo de pássaro, a bocarra escancarada e esbanguelada, de tanto mamar em teta, em feitio de menino novo, de anos recuados e presentes. Mulherista e sem-vergonhista de marca maior, Rebordão Pereira não conseguia mais gritar, por conta da engordurada Dona Auta dos Santos, que em anos recuados destroncou mais de uma balança de comércio e tantas outras de farmácia, e agora, em presente tempo, destroncava o justo centro do colo de Rebordão Pereira, que em dez anos ao derredor não conhecia tanto peso em pessoa só. O grito desfolegueado foi efeito sanfonista de Dona Auta dos Santos. Esvaziou a caixa do pulmão do pobre funcionário arquivista do Fórum de Pirajibe, de modo que não voltava a se encher e sim a continuar se esvaziando até o sujeito pegar cor de vela e expirar em rabeca de anjo. E por essas e tantas que Rebordão Pereira deu seu último grito silencioso e expirando de modo felizardista, em presença descascada de partes de rabo-de-saia.

16 de outubro de 2010

Deserto dos Rios Sêcos

Já completava léguas que caminhava na solidão do sertão, o sol no pico. O céu de anil por arriba, a terra ocre na metade baixa da vista. Vento sêco. O paletó todo suado por dentro, o chapéu caindo pela cara. Um pedaço de pau para se apoiar e ter o que segurar. A sandália grossa no seu clássico xique-xique. Na cintura um aió para a rapadura. Ao ermo, vê algo caído no chão, parecia um boi morto, tava longe ainda. Apertou os passos. Era uma mulher espancada e violentada naquele chão desértico. Olhou para todos os lados e só via distância. Fitou a criatura, gemia e se contorcia de dor. Hematomas no lindo rosto. Roupas rasgadas. A pele quase-mulata que não, até agora, tinha sido castigada por aquele sol sertanejo, que castiga tudo que é espécie de vivente na mesma medida. A julgar pelos adornos, filha de algum coronel ou senhor de terras. O sertanejo sabia que seu casebre estava mais há uma duas léguas, e seu instinto humano lhe apontava que era incorreto deixar alguém padecer assim. Tomou a moça com jeito. Caminhou as duas léguas previstas enquanto a moça padecente semi-inconsciente estava em seus braços. Estava no limite de suas forças. Sua casa era talvez a mais longe da cidade e era opção sua viver nessa lonjura. Sua casa quedava na transição do deserto pro semi-deserto, tinha verdes esparsos. Em anos remotos talvez tenha sido uma bagaceira sua casa, mas hoje, não restava sinal do que fôra. Com a donzela desconhecida em casa, acreditava que finalmente os dois anos na faculdade de medicina serviria para alguma coisa. Tratou de limpar os ferimentos com a água escassa. Dias completos, a moça desperta. Se lembra bem dos mal-feitores. Agradece o jovem sertanejo. Resta na face de anjo hematomas em verdes. Pelo após crepúsculo conversam algum tempo sobre coisas. Ela descobre que ele escolheu o sertão, e não tinha mais os valores que tinha aprendido nos anos crescidos em uma metrópole. Ele por sua vez descobre que ela era filha de um fazendeiro distante. Dos piores, um carrasco. E que seus capangas eram tão piores que seu pai, e que uma beleza daquela não passa desapercebido num sertão tão bruto como o seu. A bagaceira onde vivia era o inferno. Agora, se sentia livre de rancor e ressentimentos e livre do próprio inferno. Ela descobriu dele toda uma vida de intelectualidade, de livros, de cinema, de música, de boêmia e amigos. Mas ele acreditava que tudo isso não passava de bobagem para pessoas se sentirem melhores e superiores às outras. Fazia até então alguns meses que se encontrava no sertão. Inevitavelmente se apaixonaram. Agora, anos passaram. E na asa de um vento de agosto, ela se foi. Novamente quedou só, ele e seu amor de infância, o sertão.

21 de setembro de 2010

Dança do Índio Diabólico ou Festim do Bem Disfarçado de Maldade

Pt I

Lua cheia em noite límpida. Foi a dança mais estranha já vista, estavam fora do seu natural, gritavam como possuídos por alguma divindade inédita. Vinham com suas lanças nas mãos e expressavam pela mirada puro terror - e fome de gente. As cores estampadas na pele do pajé se mesclavam com o sangue que não era seu. As tatuagens tribalistícas mostravam rituais inefáveis, e por todo o corpo se desenhavam minunciosamente cada etapa dos festins diabólicos. Lá vinha a tribo com seus índios transfigurados e portadores de peçonha mortal entre os dentes. Caminhavam em velocidade animal, em silêncio mortal, do qual nem o ouvido mais treinado atinava. Nus, prontos a despedaçar com os dentes qualquer espécie de vida que não exalassem seus cheiros tribais (com algumas exeções), chegavam à primeira vila. As índias formosas com corpos denusdos e lindos, tatuados com rituais e danças, caminhavam com atração de sereia e garra mortal para qualquer cristão requerer extrema-unção. Enfim, a tribo chegava à primeira vila, nas cercanias da Serra da Melança, onde quase despovoada, viviam as famílias mais humildes da pequena cidade de Rios dos Sapos, cerca da capital. Passaram adiante da cidadela miúda sem fazer presas [em tempos distantes os habitantes da vila fizeram um pacto de segurança com os indígenas, pois sofriam as mesmas injustiças sociais, ambos eram sofridos pelo governo e ambos, se necessário, se apoiariam].

Pt II

9 de setembro de 2010

Quando tu descobre a fome

É algo que te transforma, tira sua alma do inferno da cegueira e da mediocridade. Não que tu vá deixar de comprar seus objetos virtuosos e autômatos (se ascender novamente, é claro). Não que tu vá escrever uma ode ou a grande obra-prima universal. E não que tu vá então deixar esmolas à população mendiga. Não, e provavelmente tu não vá deixar de freqüentar os bares e restaurantes saborosos (ensejo, buffet livre no Recanto Gaúcho, por quinze reais no almoço). E tampouco tu vai se preocupar com o problema da humanidade, fome, sede, peste, aids, gonorréia. Eu sei, não vai chegar a te afetar. Tu vai continuar dormindo tranqüilo, te digo. Tu não vai, provavelmente, passar fome todos os dias (como cerca de um bilhão de pessoas, de fato, passam todos os dias). E tu não vai deixar de fazer tudo isso, [porque e pois] tu somente descobriu a fome, não passou e sofreu nas mãos dela, nem foi testemunha ocular e vítima. Se fosse assim, depois disso, tu vitimado, a ti não vai importar suas rodas (leia-se redes) sociais, não vai te importar dar água mineral pro seu cadelo, e a ti, tampouco sobretudo, não vai te importar viver no sertão, nessa terra em que as pessoas valem mais que sua maçã prateada e não ao contrário.

22 de agosto de 2010

Se no Fim do Túnel há Paz, Espero ver Logo essa Luz, Um contado psicodélico sobre um túnel e seus medos

Se no fim do túnel há paz, espero ver logo essa luz, pois desde quando comecei a caminhada pelo túnel, negro como a morte, completo anos de chão e trilho. No túnel diabólico, tinha manhas e trejeitos para sobreviver. Sabia quando era dia, sabia quando era noite, o silêncio do túnel gritava aos meus ouvidos. Muito bicho das trevas deparei, lobisomem, lendas das quais quem me ouve contar não dá fé e zomba no pé do ouvido. Por três estações passei, e por anos até hoje não encontrei uma luz natural sequer. Somente minha voz chegou ao fim do túnel. Os sons desse túnel atravessam e rompem os limites da sanidade.


20 de agosto de 2010

Solo do Vazio, da Solidão e do Frio

Justificando-se apenas pelo silêncio, pelas mãos velhas, em pé na avenida movimentada, entregava aos transeuntes pequenos panfletos de putas, travestis e gostosas (a preços de banana). E ao passo que cada transeunte lhe ignorava, sua solidão buscava um novo amparo mais profundo, mais recluso, ninguém tinha coragem de lhe olhar na cara angustiada, marcada pelo frio, pelos ruidosos mecanos urbanos, miravam, somente, a roupa surrada, o jeans azul amarelado de todos os dias, os sapatos gastos de tanto correr atrás da vida, que insistia em lhe ignorar também. Os bolsos como repositório do panfletário solitário. Um panfletário de prazeres rápidos, ascosos, que abraçam o mal e o bem, e transforma-os em um só conceito sexual, gozando após o gozo a solidão

15 de julho de 2010

A Volta dos que Foram

E retornavam. Foi a sêca mais dura que o grande desertão caatinguento sentiu. E voltavam. A relva, a cor, os pássaros (os urubus sumiam), a rês, e o povão reduzido em muito retornava ao lar. Tinha muitos que abraçaram os urbanóides e deixaram pra trás e pra sempre a terra seca. Agora aqueles que foram, voltavam pelo mesmo caminho pro aconchego do azulão do sertão. E fortes esperariam a próxima secura. Só que voltavam contaminados pelo urbanismo cybermetropolitano. Com caras assustadas e medrosas, de tanta miséria num lugar tão milionário. Nada substitui o semi-árido. Não estavam acostumados a tanto frio num lugar quente. Tanta ignorância em lugar sabido. Agora o povão exitante se acomoda nas favelas. O semi-árido é a vida vivida mesmo.

5 de julho de 2010

Vaqueiros da Madrugada

Como tresvestido de vaqueiro, o Tinhoso errante pelas cercanias do sertão. Ele e sua trupê, de fazer cangaço verter mijo. Sua trupê, montado em demônio alado, disfarçado de cavalo bonito, desfiava pelas veredas enluaradas, atrás de alma. Em noite do Cujo, não há lobisomem, aparição ou abusão que ponha a cara pra fora da toca. É um tal de janela e porta na tramela, é um tal de lampião desapagado. O Cão rindo feito gente, gritaria que parece sair de rebanho de condenado. É um deus-nos-acuda. É maldade tanta de saci-pererê requerer folga e licença de travessura. Pra sorte ou azar do infeliz do demonião, que não tem força pra atrevessar o desertão. Só de ver a luz das cidades, o Pai da mentira recua de medo. Não há crença por aquelas urbanidades em tal criatura. É um deus-nos-acuda de computador e maquinaria, que não resta tempo pra superstição. E o capiroto bate em retirada pro semi-árido, que é lugar de dar gosto ao Cão. Só a fé no Nosso Senhor Jesus Cristo, diz o sertanejo, e na Compadecida nos protege do Tal.

2 de julho de 2010

Cabra da Péste com Metralhadora

Aquele palhero, com fumo dos diabos. Forte como charuto, de doer a goela. Na cintura, a peixera, na mão a machine gun. Aos seus olhos >> Um deserto, quente dolorido, juazeiro aqui acoli, um chão avermelhado cinzento com um céu azul agonizante, um ying yang perfeito. O lado negro e o lado azul da liberdade. Aos seus ouvidos >> Um blaxploitation soundtrack in background muito leviano, urubus cantores sobre a carniça dos novos defuntos às costas do Cabra da Péste. Ele parado, mirando o horizonte. O bigode à la Shaft. Desnorteado. Que raios fazia naquela terra? Cadê o Harlem? Na boca do peito levou um tiro de um cangaço semi-morto. De volta ao Harlem.

O Pornógrafo

Dói. Ela sabe que dói. Mas tem que ser assim, não tem jeito não. Vem com o pai que o pai é do bom. Isso. Olha só, viu, é assim mesmo, ui, cuidado. Ui. Ai. Epa, vai com calma, isso, assim, assim, ui, ui, ui. Ai. Mais, mais, abaixa. Ui, cuidado com a boca. Tá doendinho? Vamos de volta, vai. Vai. Ui, isso. Cospe, cospe. Segura firme. Cospe tudo. Ui. Ui. Ai. Isso. Cospe tudo, não engole que faz mal. Ai, eu vou pro meu canto. Tem um cigarro? Não?

Tio dentista é desse jeito. É de graça, em casa, na malandragem.
Você é o pornógrafo.

19 de junho de 2010

Sêca

Lágrima colando na poeira da fronte. Cara esticada olhando pro céu azul angustiante. Uma nuvem miserável no fundo do horizonte. Nos braços do vaqueiro... o filho defunto de fome... a pele esticada nos ossos. Não tinha nem força pra chorar. No meio do sertão escaldante: o vale dos ossos secos. Aqui acolá boiadas gentes cadelos bichos. Urubus vivos, e só mais um vivo humano, o último se finalizando.

Um labirinto de Borges.

Ventania, batia as janelas da casa-grande, a mulecada correndo na relva. A sinhá com a chita nova fazia qualquer coisa no copiar da casa. As galinhas bicando o chão batido. Lá no ermo os bois pastando. O céu completo de nuvens. Os cães atrás dos preás. O vaqueiro no jerico velho. O céu pingava algumas lágrimas.

14 de junho de 2010

Prostituta número 007

A merda de tudo é que a prostituta estava esfolada já no quinto programa, dos quinze ou dezesseis diários (em mês de safra). E nesse dia a coisa tava preta. Os dois filhos com fome do cão (queriam iogurte, bolacha recheada). Mas se fizesse a média boa dos programas (15 borrachadas vezes 25 bagos igual 375, nada mal, dizia a puta no fim do expediente) sobrevivia bem. Pena ser que a maioria dos dias a média era cinco programas. A desencaminhada já começava a roer a unha. Passado mais um ano, a puta maneirou nas conversas de travesseiro... média boa agora era cinco. A meretriz se converteu pra uma igreja evangélica... estava tentando se purificar da devassidão, por intermédio de Cristo Jesus. Mas precisava da grana. Tinha fé que seus filhos iam ser alguém.

7 de junho de 2010

Sobrenome Defunto, parte III

Caminhava com passos errantes medo aparente e cabeça de ventilador, olhando e cuidando pra todas as bandas. Garoa que vinha a passos lentos, fina no estourar... engrossando. Aqui, acoli uma coruja medonha na caixa de correio espreitava o futuro...defunto. O céu cinzento de fim de tarde, já estava num avermelhado urbano de céu nublado. Passos apertados, tinha acabado o culto. Goela seca de tantos Glórias à Deus Aleluia. A quantidade de postes e pontos de luzes tornavam o céu daquela cor meio quente. Sombra de transeunte tocaiava o projeto de morte. Ao cruzar a rua 10, o defuntado recebeu um tiro no meio da testarra e outro na boca do estômago. Nem conseguiu completar a travessia, já num rodopio completo, caiu.

ENCRUZILHADA inferno Y sertão

Lá na encruzilhada, na folia da sêca, na alma do sertão, na morte da terra. Valia e havia de montes retirantes, família por família, gente por gente. Humano com fome sêde. Animal com fome sêde. Boiada só ossada... nas veredas da terra, de focinhos para o ar, língua refrescando na miséria de vento. O boqueirão sêco, de perder vista, de perder vista era o amontanhado de pessoas aqui e acolá em passos de tartaruga, com trouxas e saudade do sertãozinho no coração quase correndo sangue em pó. Aqui, acoli, fazenda ilesa. Retirante ia pedir arrego. Os da fazenda despachavam povinho como animal maldito vindo dos infernos. E assim caminhava aquela humanidade.

31 de maio de 2010

Bagaceira é meu Nome

Male escrito, sim. Frio não de clima, mas de pessoa. Comprei craque com aquele filho da puta, que mais parece nascido de pai das trevas, vivia com o tal lá no mocó da 15. Tá certo que é barateiro no vício. Mas é um caco de frieza, de fazer cristão batizado requerer agasalho só de estar próximo. Mas esse que lhe proseia não sou eu. Esse eu que lhe proseia é um viciado. Abusado por tudo que é qualidade de autoridade, do que cuspiu-me no bagaço de terra, do que me quebrou no cacete, a mando do governo, daquele que me arrebentou a moral a mando do Divino, daquele que me matou a mando do diabo, me transformando num zumbi de pedra. Eu já não tenho mais autoridade di eu. Esse eu, de nome Bagaceira, não tem capacidade de lhe dar um dedo de prosa.

29 de maio de 2010

Sobrenome Defunto, parte IV

E o defunto jazia de cara no pé do meio-fio e sarjeta. Zóinho revirado. Sangue, aparente e pertinente ao bucho do defunto. Garoa, daquelas malditas de doer sem fim. O poste e seu feixe de luz, alumiava as gotículas do chovisco. E o defunto montado de prenúncio dos infernos, já de terno e gravata, Bíblia Sagrada encharcada de garoa. O nome do presunto era requerido com súplica num outro canto daquele bairro médio, de gentinha humilde, no aposento de uma casinha, por uma mãe que de reza e prece à divindade superior, implorava proteção ao parido, que tinha aceito os perdões de Jesus, após dez anos de vício em pinga braba, pó branco, e maleita de fumo verde também. Pairava no paraíso a alma do ex-drogado.

Cigarro

Então aspirei o ar com plenitudes da caixa do peito. Ajeitei a caruda, puxei a gola sufocante. Desci pinga na goela. A concha das orelhas atentas a qualquer ruído, revigorado então, fósforo na mão. Risquei o madeiro, que avivou chama ardida e tasquei brasa no prego de caixão. No breu do morro, o amarelão das lâmpadas dos barracos e uma espessa neblina. Noite adentro, cadelo latindo, moto de escape dos infernos esgoelando, uma sirene miúda no ermo do urbano. Na surdina da sombra, entre dois barracos de tijolos adobes, canto de escada, subia o nêgo Valdir. Me comprou cinco pedras, esse filho da puta, folha de calendário já caiu duas desde a'quisição. Nêgo Valdir até hoje, balaço na espinha, viajante dos sete-palmos na boca de lama do cemitério. Com meu pau-de-fogo queimei pano de nêgo vadio. E eu sô lá nêgo de perdoar?

13 de maio de 2010

Lotado

Seis. Manhã. Lotado este ônibus. De onde sai tanta gente? Duzentos ônibus, todos lotados iguais. O dia inteiro lotado. Velhas e idosos indo resolver os papéis da previdência. Peões, uns peles escuras do sol. Outros com cabelos carregados de gel. Espíritos redivivos. Dois em dois em cada banco. No corredor: em pé, suvacos, empurrões, pisões, encoxadas. Caras sonsas. O cobrador distraído. Egoístas espalhados pelo ônibus: com suas bandas individuais. Eventuais decotes sugados por olhos lascivos. Cabeças recostadas em vidros, olhando para as faixas do asfalto. Alguns dormindo. Entre eles um velho feio e negro, cujo coração acabou de parar. A Providência lhe falhou.

Amanhã: idem.

9 de maio de 2010

Liberdade, mas não pra mim

Nesses sertões tem famílias enormes, senzalescas, hierarquias mutiladas horrorosas. Níveis nazistas de qualidade de pessoas. Até negras famílias nas cyber-metrópoles serventes do diabo endinheirado. Eu sou um só, só eu, muitos irmão, muitas irmãs. Vários pais, várias mães. Eu não sou um jumento de carga. Apanhar na cara. Suar muito pra comer. Tolero. Não sou mula, mas só sirvo pra isso. Mas me esmaga os ânimos, meu Deus, a desgraça dos meus irmãos, da minha gente. O que eu quero, meu Pai, LIBERDADE, não pra mim. Liberdade pra meus irmãos, Liberdade pras minhas irmãs, Liberdade pros Pais e Mães. Mas por favor, sem Liberdade pra mim. Eu carrego as cruzes de todos. Jesuis... Jesuis...

Livremente inspirado no Freedom jazz de Charles Mingus.

Guerra nas Estrelas de repente na Terra do Sol

O meu povo sofrido de maleita perigosa
Sede no cosmo, sede no inferno, sede onde for
Fome é linguagem universal
estampada na fronte infeliz ou infeliz só por fora
por há de quê no interior há de haver paz
Quantum of Solace, Paz de Espírito.
Miséria não significa bucho seco.
Miséria não significa goela vazia.
Miséria, oxe, é quando me compadeço
do matuto, deitado na vereda
esvarido de força, olhando as estrelas,
e que não tenho força nem pra mim,
nem minha cria de sangue...
há de eu conseguir carregar

Blues Fiction in the Backlands ou Um Repente Imaginoso no Sertão

O sol na sua hora mais quente. A enxada dura na mão calejada, como uma extensão do caipira. Por sua vez a enxada cor da pele do matuto, o matuto por sua cor de calor, enrugado naquela idade, como um velho. Só era miséria ao dia 19 do três quando não chovia. Se não chovesse no 19 do três, prenúncio de maldição. Maldição seca, sem uma gota de misericórdia. A enxada, estou abrindo minha cova, e dela tiro meu sustento. Maldição seca, de doer a goela como um nó. Os rêgos da roça, espero que Padi Ciço provenha. A mata-virgem sedosa. Cada bicho, escarrado e cuspido de fome, de sede. Nem capiroto têm cu pra enfrentar o diabo da seca. Coca-cola. Que diabos uma metrópole interfere na vida minha. Oxalá, toda atenção para essa urban way of life. O resto que se exploda, que se foda. Jesus Cristo, quando o deserto se transformará em lagos?

Black Snake Moan ou Lamentação do Black Snake

Foda-se uma bala .44 daquele filho da puta perfurando meu peito. Foda-se.
Foda-se essa maldita bala me afundando na lama. Um merda como eu, sempre fudido e nunca desfodido.
Foda-se eu não sou ninguém. Um filho da puta ignorante.

Não sei ler. Escrevê é pra inteligente. Conheço também branco muito mais fudido que eu. Tem branco que queria tá na minha pele. Mas te digo, por todos os pretos e outros fudidos - tem amor nesse coração negro e miserável.
Seios, seios, o coração que tá lá dentro faz minha alma gozar. Esse pobre crioulo,
Que chora por uma alma fudida, com quatro tiros, a alma do seu pai. Naquela madrugada,
Em que se bate depois pergunta. Meu pai foi desgraçado, meteram por trás, miseraram o tar.
Talvez, ou com certeza, como a alma partida de um modinha chorado por um negro, no beco da miséria, na sarjeta do medo, esteja minha mãe, filhas e todas putas que se enrabicharam na minha .

Livremente inspirado no filme Black Snake Moan.

3 de maio de 2010

Uma Vereda NEGRA

A velha Negra, de pele enrugada, aguardando a audiência no fórum de Areia, resignada com o horário...iria pelejar por uma causa comum. Seu Filho, assassino jagunço desses sertões. Matou cinco na bala, outro tanto na faca, só aqueles que o excelentissimo magistrado anotou nos autos. Mais uns dez, que de causo se ouve pelas cercanias de Areia. A velha Negra iria rogar pelo desgraçado. Pedir perdão. Não era um assassino, era um Filho. Criado naquele lugar de tristeza e medo, esquecido. Não foi escolha dele. Foi escolha dos poderosos. Mas a Negra nem sabia disso. Era seu Filho que ela viu crescer. O magistrado condenou. A Preta com os olhos encharcados de água. Queria ir pro xadrez no lugar do Filho. Vivia pro Muleque. O magistrado juiz afirmou fazer a justiça necessária. A Negra moída pela justiça, descobriu que a justiça real não é igual a justiça de sua mente. O magistrado e seus filhos ao fim de semana, iam pra fazenda. Piscinavam ao domingo.

2 de maio de 2010

Neblina noturna e a desgraça

Uma neblina daquelas que o lugar que você passa diariamente se transforma num lugar que você nunca viu. Um manto branco na calada noite. No asfalto, apenas a linha amarela que divide as pistas, ora traçada, ora contínua. De vez em quando uma luz começa a crescer vindo em sua direção, na contramão, e passa ao seu lado desaparecendo após alguns metros. Uma música qualquer para ouvir no player do veículo. Madrugada. Um corpo se espatifa no pará-brisas do autômato, o crânio rachou o vidro. 60 km/h, velocidade de segurança. Mas esmagou aquele coitado noturno. Morreu na pancada. O coitado ainda em cima do veículo. O carrinho dos recicláveis amassado, e era lixo pra tudo que é lado. Papelão forrava o asfalto. Latas ornavam o manto negro. Jornais revoavam, e ainda caiam lentamente ao chão. Pedaços não-identificáveis de metal embaixo do carro. O sangue do carrinheiro escorria por debaixo do capô. Morto. As duas filhas jamais saberiam por que seu pai as abandonou. Só tinham três e quatro anos. Moravam muito longe. Sozinhas, o pai foi ralar pra conseguir o que comer. Acho que elas morrerão. Jesus Cristo, faça alguma coisa por elas. Dê um jeito, meu Deus. Eu não sei onde elas moram.

30 de abril de 2010

Maldito Inferno


Ele se via obrigado a cambiar de mão para secar aquele suor na testa daquela noite miserável de quente. Tava aperreado de passar fome. Nem imaginava que naquele exato tempo tinha um filho de uma puta festeando com luxos diabólicos, numa modernidade de prédio, nem mangava tal. Ele sabia que sua mãe era uma meretriz. Ele volte-e-meia, abusado por um pinguço, que temperava o gogó das oito às dezoito, desde os doze. O pinguço por sua vez era cadeira-cativa da prostituta, que por sua vez se prostituia no barraco. O barraco mal dava pra viver. Uma peça, além do banheiro. O guri lá no pé da cama olha a mãe-do-mundo se enrascando com cada malandro, que só vendo. Os malandros, pretos retintos, desgraçados da vida. Não sabem nada. A noite continuava quente como o inferno. O guri com algumas buchinhas. A grana no fim dava pra comprar uma caixa de zóiudo. A mãe gozava. A cobertura todos gozavam. A garrafa gozava na goela do pinguço. Os malandros gozavam o que não tinham. O guri gozava seu arroz, feijão e aborto frito.

25 de abril de 2010

Dragão diário


Não era uma favela, não chegava a ser um lugar desgraçado. Abandonado sim, desgraçado não. Em certo tempo era frio, frio de geada. Mas nas tardes friorentas de sol, céus de brigadeiro, rompiam na imensidão azul pequenos dragões. Dragões de várias cores, dragões enormes. Numa disputa linda no céu. Muleques ranhentos disputavam a posse desses dragões. Quando um dragão era abatido, disparavam quer onde fosse atrás da criatura de seda. Eram dragões diários. Mitológicos. Era uma sessão da tarde eterna, de verdade. Os dragões ora minúsculos rebentavam o céu. O comando das feras se davam por uma "linha 10". Guris com braços ágeis, dando pinceladas no ar. Alguns apanhavam em casa de um pai alcólatra. viciado em pedra. Alguns sequer tinham o que comer. Mas tinham seus dragões. Poderosos dragões.

22 de abril de 2010

cruel calor

[minúsculo sic] acontece que naquele solo, o sol rebate seu calor. teu cadáver anda por lá cinco minutos, parece que você está numa jam session, frenéticas. parece que tudo é pra baixo. tudo é pra ferrar esse matuto. tudo é desgraça. o medo, só consegue superar esse matuto, por causa da cruis de cristo-jesuis. veja só que paradoxo: nesses calores do inferno qualquer sombra é bem-vinda. o matuto que de si só tem a sombra, meu deus, nem dela consegue usufruir. o matuto de cócoras espera cair um avião pra ver uma desgraça pior que a sua. o matuto nem imagina que lá no outro lado do mundéu, se bobear, tem gente pior de ruim.

5 de abril de 2010

Urban Senzala

Madrugada. Hora do trabalho.
O ar gélido da metrópole. Os cantos dos autômatos quebram a solidão noturna, preparando-se pra tornar a solidão diurna. A sombra urbana persiste. A sombra começa a caminhar pelo caminho do sol. A sombra vai se esticando no oposto da estrela. Os decibéis urbanos sobem. O frio some.
Esbarro aqui e acolá. Não olho pra qualquer rosto. Qualquer rosto não me olha. Olha somente pra sua trilha pré-determinada. Os primeiros gritos da vendagem. "Olha a cobra". As prostitutas aproveitam o lar. Os viciados dormem.
Os mendigos. Abandonados. Carrinheiros.
Retirantes. O calor aumenta como o inferno. Os prédios ora se escassam, raro são as silhuetas, ou miragens. Ando, ando, o mesmo cenário fúnebre. O solo fica seco. Já sumiu o asfalto. Já sumiu os ruídos urbanos. Mas sigo uma vereda cabulosa, um trajeto posto determinado.

Dor

Não era como aquela dor urbana, que vem e que passa. Era uma dor na alma, uma dor eterna. Um deserto espiritual. O crepúsculo, o ocaso, o lusco-fusco*, a noite, o ar, o sertão e a esperança eram os analgésicos desta doença chamada vida dura. A solidão fazia parte da dor. A teimosa* surrava um pouco essa dor, em cada medida. A boiada mandava esquecer a dor. Até as estouradas* faziam isso. Euclides da Cunha disse que o gaudério tinha, de fato, uma vida menos dolorosa. O sertanejo não. Era dura sua vida. Sua caatinga* seca era pior que a dor. Era o alívio do sertanejo, saber que há coisas piores. A chuva regava o deserto e a'lma do matuto. Jesus regava sua alma.

lusco-fusco: ao anoitecer;
teimosa: cachaça;
estouradas: quando os bois saem correndo freneticamente, sem causa aparente;
caatinga: cenário típico do sertão
.

3 de abril de 2010

Brejo Miserável

O cadelo via algo naquele brejo, não parava de latir. Era o demo, sem dúvida. A noite tenra, a lua anil, uma bola cheia. Os grilos. Cigarras. O vaqueiro lá no copiar da casa-grande, fumando seu cigarro. A orquestra noturna não cessava. O bafo noturno penetrava na consciência sertaneja. As silhuetas da caatinga: malditos demônios noturnos que se achegavam ao intelecto do cowboy. Era a miragem noturna da solidão do desertão. A fumaça do engenho quase (poderia talvez) ser vista. Ou era a fumaça diabólica que fugia do inferno que estava sob os seus pés. Atrás da serra do fundão, uma linha cor de ouro se delineava. O amanhecer se aproximava. O cigarro do peão se acabava proporcionalmente. Os pássaros cantavam. Os demônios à luz do crepúsculo estremeciam, e tornavam-se estátuas naquele sertão. Estátuas que ao anoitecer reviviam, um maldito círculo vicioso.

2 de abril de 2010

A Profecia

A velha enrugada e feia ouviu uma profecia bíblica aos seus nove anos, "o deserto se tornará lagos e a terra sedenta em mananciais de água" e guardou na sua mente. Setenta anos duros e secos num deserto brando, rude e animal, capaz de tornar a vida em um paradoxo miserável de felicidade. Apanhou tanto do cabra chamado Marido, que suas lágrimas poderiam formar o lago da profecia. Sua filha, com trinta e quatro anos, envelhecia solteira, na castidade que qualquer jagunço-pai daquela terra despreza. O Marido por sua vez, cara enrugada de sol, pele quase-preta, moía cana no engenho. Aquele caldo da cana para ele seria o manancial que sua mulher tanto falava. Todavia o único manancial foi a poça de sangue que vazou do seu intestino quando aquele cangaceiro afundou o facão no bucho. A velha não viu o lago, mas sentiu. Foi a terra que foi jogada em cima da sua cova. A defunta sabia que o lago era uma Divina Comédia.

1 de abril de 2010

Acid Desert

O ácido contido na tormenta corroia o cacto, desfalecia o jagunço na miséria da água que nunca tinha. As léguas que andava eram inversamente proporcionais a sua desgraça mortal! Era um animal... (uma bagaceira, diria) agraciado pela desolação, abandonado por sua espécie, nem Nossa Senhora via sua secura, nem lágrimas, nem os negros. Cabroera tavam a fino fio do facão querendo seu bucho. Ele só matou um miserável, e já estava no inferno. Destino perfeito. Olhava pra cima, morrendo, a um pé da cova, uma cova sem buraco. Muita terra, uma cova em que o defunto fica por cima. Jesus iria receber ele no paraíso. Uma cova rasa (tão literal). Um filho duma puta, sem pai.

Sertão Elétrico

Cada fio de luz, cada poste, cada farol, o corpo do moleque no chão, ainda com um fio de vida, olhava pra cada coisa que despertava sua nostalgia pelo sertão. Mesmo que cada disso, cada condutor da modernidade estivesse longe da verdade daquele sertão no qual nunca viveu. No entanto, cada pessoa que contemplava aquele espetáculo macabro, o da morte do moleque, refletia uma sensação incomum de alívio, por não ser si naquele chão asfáltico e morto. O guri agonizava, enquanto nas televisões, comerciais. Nas rádios, vinhetas. Nos jornais, classificados. Nos becos, crianças drogadas e desnutridas. E naquela avenida, em que o moleque sufocava, cactos gigantescos de pedra, espinhosos como o do sertão. O círculo em volta do menino era composto por rostos e faces maquiavélicas, longe dos sertanejos euclidianos e dos retirantes gracilianos. Consumidores do desespero de uma liquidação nas Casas Bahia. Enquanto, o guri já morto, a cidade se dissolvia em veredas, os prédios secavam como juazeiros, os veículos se mutavam em urubus, as praças em matas virgens, e os postes de tungstênio se metamorfoseiam no luar do sertão, e já não há tempo, só o canto noturno sertanejo em volta da ossada do guri.

1 de julho de 2009

Pedra Quente

O sol lá do alto queimava o resto da vida do sertanejo, perdido, retirando do sertão seco pro sertão urbano. Fazia três semanas que andava por veredas asfálticas. A seca perseguia o velho vaqueiro. Mesmo naquele montão de cidade, não tinha uma gota de alimento pra sua sustança. Já tinha passado por chapadão, e até lá, naquela desolação de terra, encontrou alma cheia de compaixão. Ele tava fugindo do sertão prum lugar mais seco que seu chão lá do Mutum. O retirante parou lá numa pracinha modesta da metrópole. Com o bucho seco, um nóia urbano leva o resto do seu patrimônio. O sol o perseguia. No fim, matô a fome com algumas pedras de crack.