5 de abril de 2010

Dor

Não era como aquela dor urbana, que vem e que passa. Era uma dor na alma, uma dor eterna. Um deserto espiritual. O crepúsculo, o ocaso, o lusco-fusco*, a noite, o ar, o sertão e a esperança eram os analgésicos desta doença chamada vida dura. A solidão fazia parte da dor. A teimosa* surrava um pouco essa dor, em cada medida. A boiada mandava esquecer a dor. Até as estouradas* faziam isso. Euclides da Cunha disse que o gaudério tinha, de fato, uma vida menos dolorosa. O sertanejo não. Era dura sua vida. Sua caatinga* seca era pior que a dor. Era o alívio do sertanejo, saber que há coisas piores. A chuva regava o deserto e a'lma do matuto. Jesus regava sua alma.

lusco-fusco: ao anoitecer;
teimosa: cachaça;
estouradas: quando os bois saem correndo freneticamente, sem causa aparente;
caatinga: cenário típico do sertão
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