9 de setembro de 2010

Quando tu descobre a fome

É algo que te transforma, tira sua alma do inferno da cegueira e da mediocridade. Não que tu vá deixar de comprar seus objetos virtuosos e autômatos (se ascender novamente, é claro). Não que tu vá escrever uma ode ou a grande obra-prima universal. E não que tu vá então deixar esmolas à população mendiga. Não, e provavelmente tu não vá deixar de freqüentar os bares e restaurantes saborosos (ensejo, buffet livre no Recanto Gaúcho, por quinze reais no almoço). E tampouco tu vai se preocupar com o problema da humanidade, fome, sede, peste, aids, gonorréia. Eu sei, não vai chegar a te afetar. Tu vai continuar dormindo tranqüilo, te digo. Tu não vai, provavelmente, passar fome todos os dias (como cerca de um bilhão de pessoas, de fato, passam todos os dias). E tu não vai deixar de fazer tudo isso, [porque e pois] tu somente descobriu a fome, não passou e sofreu nas mãos dela, nem foi testemunha ocular e vítima. Se fosse assim, depois disso, tu vitimado, a ti não vai importar suas rodas (leia-se redes) sociais, não vai te importar dar água mineral pro seu cadelo, e a ti, tampouco sobretudo, não vai te importar viver no sertão, nessa terra em que as pessoas valem mais que sua maçã prateada e não ao contrário.