1 de abril de 2010

Sertão Elétrico

Cada fio de luz, cada poste, cada farol, o corpo do moleque no chão, ainda com um fio de vida, olhava pra cada coisa que despertava sua nostalgia pelo sertão. Mesmo que cada disso, cada condutor da modernidade estivesse longe da verdade daquele sertão no qual nunca viveu. No entanto, cada pessoa que contemplava aquele espetáculo macabro, o da morte do moleque, refletia uma sensação incomum de alívio, por não ser si naquele chão asfáltico e morto. O guri agonizava, enquanto nas televisões, comerciais. Nas rádios, vinhetas. Nos jornais, classificados. Nos becos, crianças drogadas e desnutridas. E naquela avenida, em que o moleque sufocava, cactos gigantescos de pedra, espinhosos como o do sertão. O círculo em volta do menino era composto por rostos e faces maquiavélicas, longe dos sertanejos euclidianos e dos retirantes gracilianos. Consumidores do desespero de uma liquidação nas Casas Bahia. Enquanto, o guri já morto, a cidade se dissolvia em veredas, os prédios secavam como juazeiros, os veículos se mutavam em urubus, as praças em matas virgens, e os postes de tungstênio se metamorfoseiam no luar do sertão, e já não há tempo, só o canto noturno sertanejo em volta da ossada do guri.