
Não era uma favela, não chegava a ser um lugar desgraçado. Abandonado sim, desgraçado não. Em certo tempo era frio, frio de geada. Mas nas tardes friorentas de sol, céus de brigadeiro, rompiam na imensidão azul pequenos dragões. Dragões de várias cores, dragões enormes. Numa disputa linda no céu. Muleques ranhentos disputavam a posse desses dragões. Quando um dragão era abatido, disparavam quer onde fosse atrás da criatura de seda. Eram dragões diários. Mitológicos. Era uma sessão da tarde eterna, de verdade. Os dragões ora minúsculos rebentavam o céu. O comando das feras se davam por uma "linha 10". Guris com braços ágeis, dando pinceladas no ar. Alguns apanhavam em casa de um pai alcólatra. viciado em pedra. Alguns sequer tinham o que comer. Mas tinham seus dragões. Poderosos dragões.