Se no fim do túnel há paz, espero ver logo essa luz, pois desde quando comecei a caminhada pelo túnel, negro como a morte, completo anos de chão e trilho. No túnel diabólico, tinha manhas e trejeitos para sobreviver. Sabia quando era dia, sabia quando era noite, o silêncio do túnel gritava aos meus ouvidos. Muito bicho das trevas deparei, lobisomem, lendas das quais quem me ouve contar não dá fé e zomba no pé do ouvido. Por três estações passei, e por anos até hoje não encontrei uma luz natural sequer. Somente minha voz chegou ao fim do túnel. Os sons desse túnel atravessam e rompem os limites da sanidade.
Desacreditava de mim mesmo quando mais de uma alma penada me ultrapassava pelo túnel, minha valência era que essas criaturas excomungadas eram cegas pela escuridão. Durante meu errar, me deparei com a Estação de Malaquias, uma estação abondana, úmida e muita água escorrendo pelas paredes. Nela ecoava meus passos, a luz de lá vinha de uma fonte de cem watts que piscava e apagava, tornando invisíveis meus movimentos. Três cabines telefônicas vandalizadas, ladrilhos quebrados, bancos depredados e sinais de protesto escritos nas paredes molhadas. Uma grade de ferro trancava a saída da estação, com dizeres de "interditado". Ao final da Estação de Malaquias, num canto, uma negra senhora, velha, com olhos ao anúncio no outro lado do trilho. Olhar vazio e congelado, mexia as mãos lentamente. Ao me aproximar da velha, chorava e balbuciava palavras inexpremíveis.
Voltei ao trilho. Poucos anos depois, me deparei com outra estação, a Estação de Mata-Cavalos. Nela, a mesma grade grossa de ferro, impedia a transição ao mundo externo. Mas, sua singularidade se mostrava no dique curto, que não dava espaços para muitas pessoas, mas do que importava espaço, se lá não havia mais de uma pessoa, um mendigo com um violino, que não conseguiu sair da sórdida estação quando o grupo de militantes o impediu muitos anos atrás. O mal desse túnel era os gritos atrasados que teimavam em soar no ar. Da época da luta nessa estação morreram gentes a rodo e seus gritos estavam lá. Por um instante todos os gritos cessaram. O mendigo diante de meus olhos se transformou em um lobisomem maldito, de tamanhos e tantos avantajados. Sua música se tornou mais horrenda e assustadora, como uma orquestra maldita saindo do inferno. E mirava-me com horror. Ao passo que voltei a errar pelo túnel. Anos depois, escutava os gritos malditos do mendigo trevoso, que ecoava pelo túnel abobadado. O grito perdurou por anos. Cessou quando me deparei com a última estação, chamada de A Última Estação. Nela não havia absolutamente ninguém denominado "humano", somente um homem sem face, sem unhas, sem cabelos, sem orifícios, como um manequim. Se rastejava para lá e para acá, agonizava como em miséria de morte. Ocupava toda a parede da estação um cartaz minimalista grafado em letras sem serifas e grandes "o fim do túnel não existe", na última estação não havia portas, bancos, objetos, somente o chão e a parede de concretos. Não existia um som sequer. Somente a criatura lisa. E volvi ao trilho. Os gritos do lobisomem voltaram. Paredes gotejando água, trilhos barrosos. Passava agora, o trem das três da madrugada a cada cinco anos. Me escondia nos vão da parede. Alguns olhares de dentro dos vagões me mirava por nanosegundos. O silêncio insuportável.
Desacreditava de mim mesmo quando mais de uma alma penada me ultrapassava pelo túnel, minha valência era que essas criaturas excomungadas eram cegas pela escuridão. Durante meu errar, me deparei com a Estação de Malaquias, uma estação abondana, úmida e muita água escorrendo pelas paredes. Nela ecoava meus passos, a luz de lá vinha de uma fonte de cem watts que piscava e apagava, tornando invisíveis meus movimentos. Três cabines telefônicas vandalizadas, ladrilhos quebrados, bancos depredados e sinais de protesto escritos nas paredes molhadas. Uma grade de ferro trancava a saída da estação, com dizeres de "interditado". Ao final da Estação de Malaquias, num canto, uma negra senhora, velha, com olhos ao anúncio no outro lado do trilho. Olhar vazio e congelado, mexia as mãos lentamente. Ao me aproximar da velha, chorava e balbuciava palavras inexpremíveis.
Voltei ao trilho. Poucos anos depois, me deparei com outra estação, a Estação de Mata-Cavalos. Nela, a mesma grade grossa de ferro, impedia a transição ao mundo externo. Mas, sua singularidade se mostrava no dique curto, que não dava espaços para muitas pessoas, mas do que importava espaço, se lá não havia mais de uma pessoa, um mendigo com um violino, que não conseguiu sair da sórdida estação quando o grupo de militantes o impediu muitos anos atrás. O mal desse túnel era os gritos atrasados que teimavam em soar no ar. Da época da luta nessa estação morreram gentes a rodo e seus gritos estavam lá. Por um instante todos os gritos cessaram. O mendigo diante de meus olhos se transformou em um lobisomem maldito, de tamanhos e tantos avantajados. Sua música se tornou mais horrenda e assustadora, como uma orquestra maldita saindo do inferno. E mirava-me com horror. Ao passo que voltei a errar pelo túnel. Anos depois, escutava os gritos malditos do mendigo trevoso, que ecoava pelo túnel abobadado. O grito perdurou por anos. Cessou quando me deparei com a última estação, chamada de A Última Estação. Nela não havia absolutamente ninguém denominado "humano", somente um homem sem face, sem unhas, sem cabelos, sem orifícios, como um manequim. Se rastejava para lá e para acá, agonizava como em miséria de morte. Ocupava toda a parede da estação um cartaz minimalista grafado em letras sem serifas e grandes "o fim do túnel não existe", na última estação não havia portas, bancos, objetos, somente o chão e a parede de concretos. Não existia um som sequer. Somente a criatura lisa. E volvi ao trilho. Os gritos do lobisomem voltaram. Paredes gotejando água, trilhos barrosos. Passava agora, o trem das três da madrugada a cada cinco anos. Me escondia nos vão da parede. Alguns olhares de dentro dos vagões me mirava por nanosegundos. O silêncio insuportável.