2 de maio de 2010

Neblina noturna e a desgraça

Uma neblina daquelas que o lugar que você passa diariamente se transforma num lugar que você nunca viu. Um manto branco na calada noite. No asfalto, apenas a linha amarela que divide as pistas, ora traçada, ora contínua. De vez em quando uma luz começa a crescer vindo em sua direção, na contramão, e passa ao seu lado desaparecendo após alguns metros. Uma música qualquer para ouvir no player do veículo. Madrugada. Um corpo se espatifa no pará-brisas do autômato, o crânio rachou o vidro. 60 km/h, velocidade de segurança. Mas esmagou aquele coitado noturno. Morreu na pancada. O coitado ainda em cima do veículo. O carrinho dos recicláveis amassado, e era lixo pra tudo que é lado. Papelão forrava o asfalto. Latas ornavam o manto negro. Jornais revoavam, e ainda caiam lentamente ao chão. Pedaços não-identificáveis de metal embaixo do carro. O sangue do carrinheiro escorria por debaixo do capô. Morto. As duas filhas jamais saberiam por que seu pai as abandonou. Só tinham três e quatro anos. Moravam muito longe. Sozinhas, o pai foi ralar pra conseguir o que comer. Acho que elas morrerão. Jesus Cristo, faça alguma coisa por elas. Dê um jeito, meu Deus. Eu não sei onde elas moram.