Já completava léguas que caminhava na solidão do sertão, o sol no pico. O céu de anil por arriba, a terra ocre na metade baixa da vista. Vento sêco. O paletó todo suado por dentro, o chapéu caindo pela cara. Um pedaço de pau para se apoiar e ter o que segurar. A sandália grossa no seu clássico xique-xique. Na cintura um aió para a rapadura. Ao ermo, vê algo caído no chão, parecia um boi morto, tava longe ainda. Apertou os passos. Era uma mulher espancada e violentada naquele chão desértico. Olhou para todos os lados e só via distância. Fitou a criatura, gemia e se contorcia de dor. Hematomas no lindo rosto. Roupas rasgadas. A pele quase-mulata que não, até agora, tinha sido castigada por aquele sol sertanejo, que castiga tudo que é espécie de vivente na mesma medida. A julgar pelos adornos, filha de algum coronel ou senhor de terras. O sertanejo sabia que seu casebre estava mais há uma duas léguas, e seu instinto humano lhe apontava que era incorreto deixar alguém padecer assim. Tomou a moça com jeito. Caminhou as duas léguas previstas enquanto a moça padecente semi-inconsciente estava em seus braços. Estava no limite de suas forças. Sua casa era talvez a mais longe da cidade e era opção sua viver nessa lonjura. Sua casa quedava na transição do deserto pro semi-deserto, tinha verdes esparsos. Em anos remotos talvez tenha sido uma bagaceira sua casa, mas hoje, não restava sinal do que fôra. Com a donzela desconhecida em casa, acreditava que finalmente os dois anos na faculdade de medicina serviria para alguma coisa. Tratou de limpar os ferimentos com a água escassa. Dias completos, a moça desperta. Se lembra bem dos mal-feitores. Agradece o jovem sertanejo. Resta na face de anjo hematomas em verdes. Pelo após crepúsculo conversam algum tempo sobre coisas. Ela descobre que ele escolheu o sertão, e não tinha mais os valores que tinha aprendido nos anos crescidos em uma metrópole. Ele por sua vez descobre que ela era filha de um fazendeiro distante. Dos piores, um carrasco. E que seus capangas eram tão piores que seu pai, e que uma beleza daquela não passa desapercebido num sertão tão bruto como o seu. A bagaceira onde vivia era o inferno. Agora, se sentia livre de rancor e ressentimentos e livre do próprio inferno. Ela descobriu dele toda uma vida de intelectualidade, de livros, de cinema, de música, de boêmia e amigos. Mas ele acreditava que tudo isso não passava de bobagem para pessoas se sentirem melhores e superiores às outras. Fazia até então alguns meses que se encontrava no sertão. Inevitavelmente se apaixonaram. Agora, anos passaram. E na asa de um vento de agosto, ela se foi. Novamente quedou só, ele e seu amor de infância, o sertão.