21 de setembro de 2010

Dança do Índio Diabólico ou Festim do Bem Disfarçado de Maldade

Pt I

Lua cheia em noite límpida. Foi a dança mais estranha já vista, estavam fora do seu natural, gritavam como possuídos por alguma divindade inédita. Vinham com suas lanças nas mãos e expressavam pela mirada puro terror - e fome de gente. As cores estampadas na pele do pajé se mesclavam com o sangue que não era seu. As tatuagens tribalistícas mostravam rituais inefáveis, e por todo o corpo se desenhavam minunciosamente cada etapa dos festins diabólicos. Lá vinha a tribo com seus índios transfigurados e portadores de peçonha mortal entre os dentes. Caminhavam em velocidade animal, em silêncio mortal, do qual nem o ouvido mais treinado atinava. Nus, prontos a despedaçar com os dentes qualquer espécie de vida que não exalassem seus cheiros tribais (com algumas exeções), chegavam à primeira vila. As índias formosas com corpos denusdos e lindos, tatuados com rituais e danças, caminhavam com atração de sereia e garra mortal para qualquer cristão requerer extrema-unção. Enfim, a tribo chegava à primeira vila, nas cercanias da Serra da Melança, onde quase despovoada, viviam as famílias mais humildes da pequena cidade de Rios dos Sapos, cerca da capital. Passaram adiante da cidadela miúda sem fazer presas [em tempos distantes os habitantes da vila fizeram um pacto de segurança com os indígenas, pois sofriam as mesmas injustiças sociais, ambos eram sofridos pelo governo e ambos, se necessário, se apoiariam].

Pt II

Foram diretos a luxuosa capital. Chegando lá destruiram tudo. Os vestidos caros das madames figuravam como fiapos nos dentes dos índios. Os tupiniquins arrebentavam portas nos chutes, matavam cachorrinhos e cadelas na lança, comiam lordes no leito do lar e suas crianças obesas vendo pornografia escondidas. Mais de um índio iria ter caganeira por causa do silicone das deusas urbanas ou por conta dos ácidos lisérgicos presentes nos jovens descolados. Mais de um índio teria seu colesterol aumentado graças as suculentas e gordorusas carnes humanas dos bem-alimentados urbanóides. Matavam os governantes com suas próprias armas. Esmagavam a cabeça de um ou de outro com televisores imensos. Decepavam troncos com atiçadores de lareira. Enforcavam filhinhos de papai com os longos cabos dos controles do videogaime. Arrancavam escalpos com o jogo de facas tramontinas que o senador ganhou do seu filho no natal passado. Com alguma mágica satânica transformavam os pit bulls em cachorros matadores que comiam e destroçavam em infinitas partes seus donos. Mais de um deputado foi divido em dois no portão elétrico. Mais de uma vereadora foi afogada no seu próprio perfume Channel 5. O próprio cacique em pessoa despedaçou o presidente com as próprias mãos. A hora corria, a lua se ia, e os índios regressavam à tribo antes do crepúsculo. Libertos da injustiça, dançariam para todo o sempre em paz. Não seriam mais produto de propaganda ou opressão partidária. Salvo se mandarem a legião de padres-zumbis para catequizar-los outra vez.