2 de abril de 2010

A Profecia

A velha enrugada e feia ouviu uma profecia bíblica aos seus nove anos, "o deserto se tornará lagos e a terra sedenta em mananciais de água" e guardou na sua mente. Setenta anos duros e secos num deserto brando, rude e animal, capaz de tornar a vida em um paradoxo miserável de felicidade. Apanhou tanto do cabra chamado Marido, que suas lágrimas poderiam formar o lago da profecia. Sua filha, com trinta e quatro anos, envelhecia solteira, na castidade que qualquer jagunço-pai daquela terra despreza. O Marido por sua vez, cara enrugada de sol, pele quase-preta, moía cana no engenho. Aquele caldo da cana para ele seria o manancial que sua mulher tanto falava. Todavia o único manancial foi a poça de sangue que vazou do seu intestino quando aquele cangaceiro afundou o facão no bucho. A velha não viu o lago, mas sentiu. Foi a terra que foi jogada em cima da sua cova. A defunta sabia que o lago era uma Divina Comédia.